Outubro e as trancas à porta

Agora é o tropel ocluso do Outono. Já o sol não espalha as palavras na eira e elas, contudo, não calaram, apenas se resguardam em si mesmas. O Outono continuará a semeá-las, de antemão sabendo-as cobertas de terra, não lidas; e inquirindo - para quê as palavras escritas, então?
É um ingresso e um regresso, o Outono. Uma aprendizagem de modéstia em solo fértil, um adeus à multidão, uma sadia colheita para depois. Os derradeiros passos da atrelagem descoberta, espaventosa. Os dias permanecem, mas os cascos soam mais compassadamente na calçada; assim consentirão a escrita a bordo de uma viagem aos sons e às cores.
Num reflectido vagar; introspectivo em lugar de proclamado; humilde onde já buscou notoriedade.
O Outono será o tempo da escrita para o próprio. Monasticamente. Talvez ao jeito de Sartre; e, por isso mesmo, os dias outonais são os mais dotados, ontologicamente falando. Vai ser assim? É o que veremos, chutando o verbo num plural que se dissolve na almejada proposição do "ser-em-si". 

Comentários

  1. Caro João-Afonso Machado
    O Outono é uma época que nos convida a visitar memórias através da escrita, recordando essa época em que não havia telemóveis, nem se sabia o que era a inteligência artificial. Haviam os livros, os jornais, o cinema, as exposições e nem sonhávamos que o futuro iria ser tão diferente daquilo que alguma vez imaginámos.
    Um abraço e continuação de boa semana!

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    1. Tem toda a razão caro Gekko Fries. Gosto do presente mas não quero habituar-me a facilidades excessivas.
      Um abraço

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  2. Há uma delicadeza na escolha e no alinhamento das palavras, como se cada uma tivesse o seu lugar exacto neste bordado de ideias. Nem sempre apreendo de imediato todo o sentido do que leio, mas há uma beleza na escrita que me prende e me faz voltar para reler.
    Que a estação corresponda a tudo o que nela se desenha. Um abraço.

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    1. Boa noite Romi.
      Outubro passou a ser um mês tranquilo. Acalorado para a caça e temperado para a melhor viagem. Antigamente era já o cheiro a pólvora, hoje a tentação da derradeira investida por aí. Tudo isto nos afasta um pouco das teclas e nos aproxima do bloco notas.
      Um abraço minha Amiga.

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  3. boa noite querido João-Afonso,
    esta deliciosa celebração do outono lembra o sono de Perséfone. magnífico! um abraço meu Amigo

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    1. Olá minha Amiga Ana.
      Muito obrigado.
      Por acaso ando lendo a mitologia grega... Acertou!
      Um abraço

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  4. Outubro,outono, serenidade, reflexão, e uma bela e monótona escrita .

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