A massa do sangue
Aos vinte anos, quando se escreve, as palavras vêm ao papel com inflamadas tonalidades, em compasso épico (inflamadamente...), e o leitor atira-as fora, por tão maçadoras, e torna ao futebol, ou ao que seja. Aos sessenta (e tais), já o discurso se modera e recai sobre o sentir próprio; é mais íntimo, confessional, bota abaixo o propagandismo. Assim, pausadamente, recordo o meu querido Primo JV, que os desgostos (creio que só eles...) levaram à tumba vão lá uns dois anos.
Grande parte dos seus bens foram a leilão; na tacanhez dos meus meios monetários repesquei dois belíssimos leões esculpidos em madeira.
Têm história. Vieram com o seu Bisavô, meu Tio, de uma expedição à China, da qual resultou o primeiro acordo comercial celebrado entre Portugal e esse distante povo. Uma aventura! Pai de três filhos órfãos de Mãe, o meu Tio confidenciava a Camilo Castelo Branco, antes de embarcar, em 1887, - Não sei se sempre se volta destas viagens. É certo talvez que a maior parte das vezes não se fica por lá...
Voltou e, entre outros souvenirs, trouxe os dois leões. O sangue em que nasci não podia deixá-los à mercê de quem quer...
E esta a tal massa que consolida ligações parentais com já três e quatro gerações. Um nome, uma terra, gente numerosa. Um só código (genético) não perdido nos esparsos tempo e espaço. Com uma simbologia comum. Encontros e reeencontros. Nós.
Provindo de comuns ascendentes, numa ramificação que, se se auto-desidentificar, nos deixará sozinhos, isolados, perdidos na multidão, diluida que foi... a massa do sangue. Os escoceses, quanto sei, lá nas suas terras altas, precavêm-se desse mal.
Comentários
Enviar um comentário
Se quiser comentar...