Um minhoto na Capital
A Gare do Oriente é, essencialmente, um pré-aviso do apocalipse. Assim como se o desvastador tsunami já tivesse acontecido e, naquele bocado de betão e metais, se refugiassem as sobras da Humanidade toda, um aglomerado de etnias múltiplas esperando venha do céu um milagre qualquer.
Foi como dei comigo, rodeado de ensurdecedora vozearia. Ensurdecedora... será exagero, porque nada me impediu de ouvir o tilintar das suas pulseiras, saída (a minha amiga) de um táxi e avançando decidida para o epicentro da catástrofe. Não lograra tempo para acabar de se vestir, mas sempre calçara botas altas e trazia mantimentos. O que congeminaria a minha amiga para salvar a pele e, quiçá, assegurar a continuidade da espécie?
Corri para ela no alívio de quem se vale da Santinha do Monte. E até entusiasmado, imaginando-nos, os dois, sozinhos, tripulando uma arca-de-noé Alentejo fora. Assim lhe caí nos braços, como quem se agarra a uma boia; ou a duas...
Creio não ter sido bem entendido. Repeliu-me, perguntou que histeria era aquela! Eu balbuciei algo sobre o fim do mundo, que ela interpretou como o fim da linha, Santa Apolónia, - como eu tão bem sabia, acrescentou com severidade. Os seus rígidos humores não exteriorizavam qualquer propósito de conversa e, realmente, olhando em redor, nem bombeiros, nem ambulâncias, nem afogados ou politraumatizados. E vendo-a marchando, a afastar-se, ainda lhe gritei:
- Pois eu sigo para o Algarve! Um amigo, piloto de helicópteros, vem cá buscar-me.
Então ela estacou e espreitou, mais macia, gulosa até. Era tarde, porém. Com o orgulho de um minhoto não se brinca. Sim, eu aguardaria o amigo aviador ali sozinho, nem que as águas do tsunami rebentassem todas, no instante seguinte, sobre a Gare do Oriente.
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