Toiros em Baião

Com uns tantos invocando os direitos dos animais e, logo em resposta, as gentes organizadas em tertúlias e outras defesas das tradições, assim militantemente se confrontando entre si, os toiros prosseguem tranquilamente, e ir aos toiros continua a ser o espectáculo dos "olés!" e dos "triunfos" e das "voltas à arena"; de muitas asneiras ditas, bem merecedoras de uma valente cornada, de tantas vontades de estar lá dentro, sem alma para ir além barreiras, de basófias bastantes também; da cor, das flores, dos bonés pelo ar, do movimento e da galhardia, da dor e da coragem em a suportar; do pasodoble e, às vezes, de irremediáveis azares, crueis como só os ibéricos os sabem aceitar.
Nunca me dei ao trabalho de explicar-me o meu gosto pelos toiros. Simplesmente gosto. Simplesmente... e caladamente, porque a festa brava vem lá do alto da bancada até ao centro do redondel, e nada há a perder. O povo de Baião, que não frequenta Santarém ou o Campo Pequeno, sentado em meu redor, aprecia a tourada no seu pragmatismo: manda os fracos comer mais e aplaude os fortes - tanto humanos como bovinos. E sempre no cantado sotaque (que muito me encanta) destas terras onde o Minho exala o último suspiro, dentro de uma cratera, à chuva e sob uma trovoada carregando de negrura o céu.
Fui e - insisto - gostei muito. E trouxe multiplas recordações, entre elas a do único ferro cravado em sorte de violino na corrida. 

Comentários

  1. Caro João-Afonso Machado.
    Foi em criança que comecei a ver touradas na televisão com a minha avó e adorava as corridas à "antiga portuguesa", com todo aquele aparato e cerimónia. Adorava as corridas a cavalo, "conhecia" os nomes desta arte equestre e quando vi a primeira corrida na companhia da minha avó adorei e depois à essa arte do Hemingway que melhor do que ninguém escreveu sobre esta Arte.
    Um abraço!

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    1. Caro Gekko Fries: tem razão. Lembro bem o Manuel Conde e o grande J. Nuncio, a preto e branco... Depois, mais tarde, o meu Pai levou-me a uma corrida em Santarém. E depois Campo Pequeno, etc. Caldas, a mais bonita praça do País. O toureio a pé diz-me pouco. O resto ficou sempre com idas entusiasmadas.
      Um abraço!

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  2. « Este fidalgo era muito manhoso (2) e gentil cavalgador de gineta (3). E porque a rainha D. Isabel [a Católica] ouvira dizer que era para muito, andando ele lá em Castela por embaixador, desejou ver alguma cousa que disso a certificasse. E, estando para ver correr uns touros em Arévalo, mandou-lhe dizer que se viesse de um palanque onde estava para uma casa onde ela estava com el-rei [Fernando de Aragão]; e com este recado mandou outro: que em ele atravessando a praça, soltassem o mais bravo touro. Fez-se assim; e a gente que não estava ainda recolhida acolheu-se toda aos palanques, ficando só D. João no terreiro vestido num capuz com sua espada a tiracolo. E o touro indo-se a ele, não fez D. João mais mudança que despir o capuz e pô-lo no ombro; e o touro chegando, lançou-lho e, arrancando da espada, de um só golpe que lhe deu lhe cortou o pescoço apartado do corpo. E, alimpando a espada no touro, tomou o capuz e foi-se à rainha sem perder os pantufos (4). E a rainha disse-lhe:
    — Boa sorte fizestes, embaixador!
    E ele respondeu-lhe:
    — Senhora, outro tanto faria qualquer português.»

    (1) D. João de Sousa: foi senhor de Sagres e Nisa e guarda-mor de D. Manuel. Acompanhou o pai, Rui de Sousa, na missão a Castela para negociar o Tratado de Tordesilhas. Foi nessa ocasião que se passou o episódio da tourada, ao qual também fazem referência Garcia de Resende na Crónica de D. João II, cap. 96 [pude confirmar e na verdade é o LXXX], e D. António Caetano de Sousa na História Genealógica, t. XII, parte II, cap. XXIV; a versão de Garcia de Resende é diferente: D. João era um dos toureiros a cavalo que tomavam parte na corrida. Rui de Sousa, o pai de D. João, foi homem da confiança de D João II e de D. Manuel e gozou de um extraordinário prestígio na sua época: «foi o maior homem daqueles tempos», diz dele o Nobiliário das Famílias de Portugal, Título Sousas.
    (2) Muito manhoso: com muitas qualidades ou habilidade.
    (4) Gineta: maneira de montar, com estribos curtos, arções muito altos e freio diferente do que se usava na brida.
    (4) Sem perder os pantufos: sem correr,isto é, com passo normal.»

    Texto e notas: Ditos Portugueses Dignos de Memória: História íntima do século XVI anotada e comentada por José H. Saraiva, 3.ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997, 284 (p. 115).

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    1. Obrigado pelo episódio que eu ignorava. A tourada vem de longe em Portugal (mas já os romanos a apreciavam)
      Cumprimentos

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  3. « Este fidalgo era muito manhoso (2) e gentil cavalgador de gineta (3). E porque a rainha D. Isabel [a Católica] ouvira dizer que era para muito, andando ele lá em Castela por embaixador, desejou ver alguma cousa que disso a certificasse. E, estando para ver correr uns touros em Arévalo, mandou-lhe dizer que se viesse de um palanque onde estava para uma casa onde ela estava com el-rei [Fernando de Aragão]; e com este recado mandou outro: que em ele atravessando a praça, soltassem o mais bravo touro. Fez-se assim; e a gente que não estava ainda recolhida acolheu-se toda aos palanques, ficando só D. João no terreiro vestido num capuz com sua espada a tiracolo. E o touro indo-se a ele, não fez D. João mais mudança que despir o capuz e pô-lo no ombro; e o touro chegando, lançou-lho e, arrancando da espada, de um só golpe que lhe deu lhe cortou o pescoço apartado do corpo. E, alimpando a espada no touro, tomou o capuz e foi-se à rainha sem perder os pantufos (4). E a rainha disse-lhe:
    — Boa sorte fizestes, embaixador!
    E ele respondeu-lhe:
    — Senhora, outro tanto faria qualquer português.»

    (1) D. João de Sousa: foi senhor de Sagres e Nisa e guarda-mor de D. Manuel. Acompanhou o pai, Rui de Sousa, na missão a Castela para negociar o Tratado de Tordesilhas. Foi nessa ocasião que se passou o episódio da tourada, ao qual também fazem referência Garcia de Resende na Crónica de D. João II, cap. 96 [pude confirmar e na verdade é o LXXX], e D. António Caetano de Sousa na História Genealógica, t. XII, parte II, cap. XXIV; a versão de Garcia de Resende é diferente: D. João era um dos toureiros a cavalo que tomavam parte na corrida. Rui de Sousa, o pai de D. João, foi homem da confiança de D João II e de D. Manuel e gozou de um extraordinário prestígio na sua época: «foi o maior homem daqueles tempos», diz dele o Nobiliário das Famílias de Portugal, Título Sousas.
    (2) Muito manhoso: com muitas qualidades ou habilidade.
    (4) Gineta: maneira de montar, com estribos curtos, arções muito altos e freio diferente do que se usava na brida.
    (4) Sem perder os pantufos: sem correr,isto é, com passo normal.»

    Texto e notas: Ditos Portugueses Dignos de Memória: História íntima do século XVI anotada e comentada por José H. Saraiva, 3.ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997, 284 (p. 115).

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