Um minhoto na Capital
É uma dor aguda, a Estrada de Benfica. Um típico pé alfacinha, do qual rapo sempre saudades difíceis, já sem conseguir passar à porta da relojoaria, do primeiro andar sobranceiro, das tardes de há quarenta e pico anos, na varanda, ouvindo a melhor música do mundo (de onde vinha, direitinha a tais performances), como jamais outra se tocou. Nesse reino das pracetas e das marquises, de árvores despido, assim o Jardim Zoológico ficasse para trás, em que mandava o meu chorado Amigo - um reino infindo como todas as ilusões ópticas e juvenis, quem adivinharia a morte o levaria tão precocemente e tão fulminantemente?...
Por isso me doi, por isso evito a Estrada de Benfica, não obstante o pacato corredor em que parece se ter transformado, o trote de um ou outro autocarro, de qualquer distraído automóvel ou de algum ás do pedal. No entanto, calhou desta vez e...
... e não é que fui dar com ela, a minha loiríssima amiga, de resto uma peça assaz mais provável nos tabuleiros de xadrez de Alvalade ou das Avenidas Novas?! Aqui na Estrada de Benfica, em cima de um andaime, de pincel na mão?!
(Nem me ocorreu, tal o espanto, não ter ouvido o seu inimitável tilintar das pulseiras!)
Pintalgava, muito empenhada, um muro todo por sua conta e, assim compenetrada, não deu por mim. Urgia fazer-lhe uma sorrateira surpresa, razão porque contornei o andaime em bicos de pés e olhos nas suas apetecíveis pernocas, deixadas ao sol por um sugestivo calção. Abeirei-me, então, e, já sob a estrutura, exclamei - Amália Rodrigues!!! Recebendo, em troca, um silêncio absoluto e matematicamente impossível. Até porque, além de outros ícones do fado ali pintados, eram as sobrancelhas da Amália que ela retocava com esmero. - Amália... - tartamudeei, cabisbaixo, e mais do mesmo nada. Somente me alertou, nesse momento, o mutismo das pulseiras, razão por que trepei as ditas e benditas pernocas acima até uma carinha laroca, sorridente, tudo isso e o resto, menos a sua pessoa. Enganara-me, é o que dá a idade...
Refiz-me. Tentei raciocinar. Alguma vez a minha amiga teria conhecido a Estrada de Benfica? Ela, toda "à" Lapa, ou Campo de Ourique, as docas à noite? De resto, segredava-me agora esse quase irmão, ouvi-o bem, alegrei-me até, - Eh pá essa gaja é só disco-sound na mioleira! - "Essa gaja", entenda-se, a minha multitilintante amiga. E, indomesticável (era de ver a cena), militantemente anti-burguesia, atirou-se à pobre coitada bramando o nosso xamane Jim Morrison, it would be The End (versão alive) - «Fuck, fuck - ah, yeah/Fuck, fuck/Fuck, fuck/Fuck, fuck, fuck yeah/Come on, baby, come on/Fuck me, baby, fuck, yeah/Whoa...»
E então sim, dei de caras - ou melhor: de costas - com a minha aurífera amiga. Espavorida, running away Estrada de Benfica fora, só parando no Bananas; tilintando como uma ambulância dos primórdios, deixando-nos por essas pracetas de anarquia e de inconformismo, nos idos que foram só de alguns, à frouxa sombra do rame-rame da velhinha Estrada de Benfica. «Not to touch the heart/Not to see the sun/Nothing left to do/But run, run, run...» - evocando sempre o nosso profano de estimação.
Comentários
Enviar um comentário
Se quiser comentar...