Na Leirosa, a arte de sempre

A rede chegou pobrezinha: uns tantos robalos pífios mais uns patas-roxas para a caldeirada, um punhado de lulas (logo recolhidas com cobiça), as cavalas, e o resto eram meninos pequenos - ruivos, carapau, uma fartura de peixinhos que se fritam e comem todos, a cabeça e a cauda também. Assim flutuam os tempos do arrasto...
Mas o Estrela do Mar da Leirosa não se cansa. É certo, as águas de Agosto são benevolentes, quase lisas, foram-se as mulheres que se carpiam no areal sempre que o barco erguia a proa na rebentação das ondas, os braços de súbito remando o ar, o desequilíbrio e o susto e a voz do arrais, poderosa, quase um chicote, porque se tudo aquilo se atravessasse na braveza do mar seria o fim, e outra negra dúzia de viúvas.
Agora manda o motor. O barco é depositado no colo das águas pelo reboque do tractores e logo a hélice entra a rodopiar. Sem engasganços. A incursão é quase a perder de vista, onde a rede é lançada, e no regresso os tractores pegam-lhe às pontas, puxam-nas e enrolam-nas. Dos bois resta a sua memória, o eco da porrada que levavam, em quantos painéis de azulejos no paredão da praia.
É, a rede veio pobrezinha, muito magra. (Terá pago todo o combustivel gasto?) E amanhã decerto será como hoje. Mas a rede continuará a ir e a regressar. Talvez assim enquanto das suas malhas não se escapulir o sangue que se esvai, de gerações e gerações de pescadores desta pesca que foi o seu único pão.

Comentários

  1. bom dia, querido Amigo

    como sempre a sua escrita telegráfica transporta-nos para os lugares :) adorei esta viagem! quase sinto a brisa salgada a perfumar a pele. continuação de boas férias <3 forte abraço e tudo de bom

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    1. Obrigado, minha Amiga Ana. Espero que vá levando o seu Agosto ao melhor gosto. Estas pescarias são a minha perdição...
      Um abraço, que tudo corra bem consigo.

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  2. Caro João-Afonso Machado
    Excelente texto repleto de memórias da faina de outros tempos em contraponto com o que se passa nos nossos dias. A labuta do dia a dia dos pescadores, que em tempos foi tão bem retratada pelo fotógrafo Artur Pastor.
    Um abraço e continuação de boas férias!

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    1. Caro Gecco Fries, conheço algo de Pastor e é um artista excepcional. Esta praia é para mim uma peregrinação anual.
      Umas boas férias para si e um abraço.

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  3. Faina que me é familiar, noutra praia, tal e qual, mas com mais fartura noutros tempos. Quanta saudade, meu bom amigo! Um abraço e um bom resto de semana!

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  4. Um texto que traz recordações..
    Barcos que chegavam da pesca, manhã cedo , corriam as mulheres para ver o que ttazia de fresco.
    Sempre que vou à praia, Apúlia, onde passei muitos verões, recordo com saudade esses tempos.

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  5. Uma cena de um filme doutras épocas difíceis mas que trazem boas recordações.
    Sempre que vou à praia dos muitos verões que lá passei, recordo com saudade esses tempos.
    ❤️

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    1. Olá Maria. Quando a rede chega, abrem-na, escolhem o peixe e põem-no em cabazes. Logo depois é a lota.

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