Na Leirosa, a arte de sempre

A rede chegou pobrezinha: uns tantos robalos pífios mais uns pata-roxas para a caldeirada, um punhado de lulas (logo recolhidas com cobiça), as cavalas, e o resto eram meninos pequenos - ruivos, carapau, uma fartura de peixinhos que se fritam e comem todos, a cabeça e a cauda também. Assim flutuam os tempos do arrasto...
Mas o Estrela do Mar da Leirosa não se cansa. É certo, as águas de Agosto são benevolentes, quase lisas, foram-se as mulheres que se carpiam no areal sempre que o barco erguia a proa na rebentação das ondas, os braços de súbito remando o ar, o desiquilíbrio e o susto e a voz do arrais, poderosa, quase um chicote, porque se tudo aquilo se atravessasse na braveza do mar seria o fim, e outra negra duzia de viúvas.
Agora manda o motor. O barco é depositado no colo das águas pelo reboque do tractores e logo a hélice entra a rodopiar. Sem engasganços. A incursão é quase a perder de vista, onde a rede é lançada, e no regresso os tractores pegam-lhe às pontas, puxam-nas e enrolam-nas. Dos bois resta a sua memória, o eco da porrada que levavam, em quantos paineis de azulejos no paredão da praia.
É, a rede veio pobrezinha, muito magra. (Terá pago todo o combustivel gasto?) E amanhã decerto será como hoje. Mas a rede continuará a ir e a regressar. Talvez assim enquanto das suas malhas não se escapulir o sangue que se esvai, de gerações e gerações de pescadores desta pesca que foi o seu único pão.
 

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