Sexta-Feira
Arranjei uma Sexta-Feira. (Sim, hoje.) Mas
a ideia não é original, desviei-a de Daniel Defoe: também Robinson Crusoe
sentiu a pressão do isolamento; e defendeu-se com a aparição de um primitivo, a
quem se afeiçoou de um jeito meio colonialista, meio jocoso. Chamou-lhe, como
todos sabem, Sexta-Feira. (O dia em que ambos cruzaram os seus destinos.)
Assim não deixei escapar a minha
Sexta-Feira. (Antes uma companhia feminina, realmente.) Enredei-a em memórias,
desde logo a de um outro Robinson que também navegava, com inteligência e
sageza, estes tenebrosos mares cibernéticos. Era um cavalheiro distinto, muito
viajado e de requintados conhecimentos culinários. Percebi que me procurou, vão
lá muitos anos, quando atracou no porto de Linkedin onde tempos depois, por
mero acaso, desembarquei e me foi transmitido o recado: mantinha-se o nosso
trato de um ataque surpresa já não sei a que petisco.
Porque Robinson logo levantou âncora e
zarpou, desprezando a invernia que já se anunciava. Ao que sei, em noite
apocalíptica, como jamais se vira outra igual, levado no roldão das ondas
esbarrou-se contra as penedias da costa, ele e os seus saberes e os nossos
planos. É descobrindo a cabeça, de tricórnio na mão, que lavro na areia o meu
louvor e o meu pesar. Mas Robinson, em boa verdade, pagou o preço da sua
audácia e esqueceu (ou fez-se esquecido...) que o célebre aforismo - audaces
fortuna juvat - é latim de magrebino ou de vendedor de telemóveis; e
ele, Robinson, sempre com a Eneida de Virgílio na mesa de cabeceira e na ponta
da língua!...
Como Robinson, muitos pereceram já. E
muitas também, estas bulindo mais forte com o meu coração que reza para que
alguma tenha logrado salvar-se em qualquer ilhota deserta, como eu. Por isso
narrativa alguma prescinde de resmas de bambu atadas com lianas, feitas
jangadas lançadas à rebentação e às quentes correntes marítimas, numa boleia de
regresso à humanidade.
Porém, aguardarei ainda. Fenece-me a vontade de cortar bambus com um canivete; e não sei dar os nós de marinheiro que confeririam eficácia às lianas. É... Não faltam por aí coqueiros nem o peixe... E o peixe é, por direito adquirido, de Sexta-Feira, tubarões excluídos. A minha Sexta-Feira será a mãe de muitas Sextas-Feirinhas, se Deus me der saúde. E já que estamos em maré de aforismos, será bom recordar que quem espera sempre alcança.

Lê-lo é um bálsamo, meu amigo! Uma Sexta-feira iluminada e tudo o que mais deseja se transforme em realidade em todos os dias da sua vida! Bom fim-de-semana!
ResponderEliminarObrigado, amiga Maria. Tudo lhe desejo para si, redobradamente. Bom fim de semana. Um abraço!
EliminarExcelente, caro Amigo.
ResponderEliminarBoa noite e um abraço.
Muito obrigado, caro Amigo.
EliminarUma boa noite também para si.
Um abraço.
bom dia, querido Amigo :) adoro como brinca com as realidades. tão maravilhosamente maravilhoso! concordo consigo, estes mares são confusos e separam mais do que unificam. este seu espaço é um aconchego! estou muito feliz por poder voltar a lê-lo! abraço e feliz fim-de-semana :)
ResponderEliminarObrigado Ana. Também gostei de a reencontrar aqui. Vou até à sua ilhota, espreitar o aue pescou.
EliminarUm bom fim de semana minha amiga. Um abraço.
É um belo tributo aos que passaram pela nossa vida e aos que continuam a dar sentido à viagem. Que nunca lhe faltem bons portos nem boas companhias. Um abraço.
ResponderEliminarQue seja longa a navegação e acolhedores os portos.
EliminarUm abraço Romi