A Sérvia, outra vez
É uma língua inexpugnável e o cirílico pede meças ao labirinto cretense. Resta-nos o Danúbio para afogar e esquecer essas angústias. Sequer saídos do cosmopolitismo de Belgrado. Onde ainda vendem o busto-miniatura de Tito (o Broz...), que nos parques a polícia faz de conta e os vendedores multiplicam-se em mesas de souvenirs; táxi? - só ajustando o preço antes da corrida, não há taxímetros, mas talvez o taxista fale inglês... e conheça o euro, porque o viajante desconhece a moeda sérvia, o dinar.
Mas Belgrado será somente a chegada e a despedida. O roteiro aponta a oriente, aos Balcãs, ao certo onde, é segredo. Recordo o mercado de Pirot, as suas cores garridas, um chão de malaguetas, pilhas de curgetes e rabanetes, os esquilos e os faisões dourados engaiolados... O falatório das velhas, o seu protesto ao intentar fotografá-las (mas como explicar-lhes que eu não era serventuário do Broz?), uma vida pobre por toda a parte, mas uma vida robusta.
(E o cão indolentemente estendido junto à madeira carcomida de uma porta qualquer...)
Sobreveio o acelerado ribeiro de águas cristalinas fogueteadas por trutas ariscas, batalhadoras, só podia ser. E o cima-a-baixo dos rebanhos, as lavras com tractores-relíquias quase centenários. (É, a Sérvia é também uma curta paragem no tempo.) Na vilória a veterinarska não logrou sobreviver, vidraças estilhaçadas assinalavam onde ruíram as suas esperanças; proliferam os abetos e os canídeos sonolentos, aquecendo-se no asfalto onde os veículos já transitaram todos; o hotel estava encerrado porque o dono não tinha pachorra para o abrir e na encosta a aldeia dos pastores foi abandonada, ficando nela a gasta carcaça de um camião militar.
Inenarráveis segredos... Mas há uma festa a que seremos conduzidos. E outra, a da alegria da idade ainda disposta ao desconhecido e às surpresas.
Bela narrativa! Foi como se por lá se quedassem os meus passos...
ResponderEliminarGrata.
Fá, foi só um resumo... Tem lá coisas que nem supomos. Como volto, trarei pormenores.
EliminarObrigado !
Caro João-Afonso Machado
ResponderEliminarUma maravilhosa crónica sobre essa Sérvia, que em tempos esteve incluída na Jugoslávia de Tito e que participava nos famosos "jogos sem Fronteiras", nessa época em que o mundo político tinha criado uma denominada "cortina de ferro".
Ao ler os percalços da sua viagem e estadia, recordei-me do escritor Lawrence Durrell, que viveu durante uns anos em Belgrado, ao trabalhar na embaixada britânica e que nos deixou um conjunto de livros cuja acção bem divertida se desenrola na Jugoslávia: "Cenas da Vida Diplomática" e "Salve-se Quem Puder", edição da Ulisseia.
Um abraço !
Caro Amigo, hei de ler esses livros sem dúvida. A Sérvia é um país complicado... O avião levanta de madrugada e desligarei o tlm. A factura saiu muito pesada a última vez. Espero trazer de lá boas imagens.
EliminarUm abraço
querido Amigo João-Afonso
ResponderEliminarcá estou, voltei a poder comentar :) devia escrever reportagens para a Volta ao Mundo! a tua escrita é limpa e tens o poder de nos fazer viajar contigo. é um dom! abraço e feliz resto de semana
Amiga Ana, em Frankfurt a secar por um avião para Belgrado.
EliminarDepois conto. Um abraço
querido Amigo espero que estejas bem!
EliminarOlá Ana! Cheguei ontem
EliminarHoje vou para casa. Ainda farei um post, se os incêndios deixarem passar. Um abraço